Marte e as novas descobertas

Marte e as novas descobertas.
Oswaldo Massambni e Marta S. M. Mantovani.

A existência de vida em Marte foi sugerida pela primeira vez no século XIX, pelo padre jesuíta Pietro Angelo Secchi (1818-1878) e pelo astrônomo Giovanni Virginio Schiaparelli (1835-1910) como resultado de suas observações astronômicas na Itália. Analisando imagens de Marte relataram a presença de vales, que denominaram canali. Por outro lado, a questão da existência de água em Marte vinha sendo considerada desde o século XVII, quando o astrônomo holandês Christiaan Huygens (1629-1695), observando Marte durante o período de 1659 a 1683, detectou uma grande mancha em sua superfície que denominou de "Grande Pântano", acreditando que fosse um acúmulo de água. Verificando o deslocamento dessa mancha, calculou a duração do dia marciano em aproximadamente 24,5 horas. Uma interpretação inadequada da palavra canali levou o norte-americano Percival Lowell (1885-1916) a imaginar que se tratava de canais construídos por laboriosos marcianos, que transportavam água das regiões polares aos vales para irrigar suas plantações. Lowell foi um dos mais fervorosos defensores da existência de uma civilização vivendo no "planeta vermelho" e mais evoluída que a terrestre. Publicou, em 1906, o livro Marte e seus Canais e, em 1909, Marte como a Morada da Vida, no qual especula que os canais marcianos eram obra de "criaturas inteligentes, semelhantes a nós em espírito, ainda que não em forma". Visando investigar esses canais Lowell erigiu às suas próprias expensas o observatório de Flagstaff no Arizona (E U A). Inspirado na tese de Lowell, o novelista científico Herbert George Wells, narrou a invasão da Terra por marcianos em sua obra Guerra dos Mundos (1898). Foi com base nessa ficção que, em 938, o cineasta George Orson Welles anunciou em sua novela radiofônica a invasão de discos voadores provenientes de Marte dirigindo-se para Nova Jersey, provocando um enorme pânico na população da região de Nova York. Sua repercussão é sentida ainda hoje em vários meios de comunicação, como também persiste na memória de muitas pessoas.

A interpretação errônea de Lowell foi abandonada apenas em meados da década de 60, uma vez que as imagens obtidas através das sondas espaciais Mariners descartaram qualquer possibilidade de existência de atividades artificiais por seres inteligentes. Em 1968 a questão foi retomada, quando radioastrônomos ingleses descobriram o primeiro pulsar. Devido à grande regularidade de emissão de energia oriunda desses objetos astronômicos, esses cientistas pensaram, num primeiro momento, que haviam detectado sinais inteligentes originados fora do sistema solar. Recentemente a associação entre Marte e a vida extraterrestre ressurgiu com a descoberta de microfósseis de formas primitivas de vida no meteorito AHL84001, encontrado no Continente Antártico e supostamente oriundo daquele planeta. Outra evidência provém de imagens de alta resolução da superfície de Marte, obtidas através das sondas enviadas a esse planeta, que revelam feições morfológicas compatíveis com a existência de fluxo de água e a presença de sedimentos, provavelmente deixados nos vales e no fundo de lagos que secaram. Esses fatos sugerem que, no passado em Marte, o meio ambiente apresentava características favoráveis para a presença de vida, mesmo na forma mais primitiva. O efeito de aparente erosão fluvial constitui uma convincente evidência da dramática mudança climática experimentada por Marte. Entre outros fatores, a atual situação de estresse em que se encontra a Terra é relevante para a continuidade da investigação científica dessas questões, como também para o desenvolvimento dos autais projetos e de novas missões espaciais. As missões não tripuladas para Marte, dentre as quais se insere a missão Mars Pathfinder e Mars Global Surveyor, incorporam importantes desenvolvimentos científicos e tecnológicos, que já permitiram de forma inédita o pouso de um mini veículo robotizado, denominado Sojourner, projetado para determinar propriedades físicas e químicas do solo e de rochas ao seu redor. A missão Mars Pathfinder, descrita pela Nasa como o maior projeto interplanetário de todos os tempos, teve muito mais êxito do que qualquer outra e foi concluída na primeira semana de novembro de 1997, tendo seus sistemas de controle e de instrumentação funcionando muito além do tempo previsto.

Essas missões, concebidas a custos muito inferiores às missões anteriores, representam um passo importante na busca de respostas às questões sobre a habitalidade de vida nesse planeta. O programa Mission to Planet Mars, da Nasa, inclui para os próximos anos uma missão não tripulada que deverá trazer amostras para a Terra, e uma missão tripulada para a segunda década do próximo século, com vistas à execução de um ambicioso projeto de engenharia planetária, para tornar habitável o inóspito Marte.

Oswaldo Massambani é professor Titular e Diretor do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo e Marta S. M. Mantovani é professora titular e vice-diretora do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo.


 

Planeta Marte