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Em Causa os Indícios de Micróbios Marcianos.
Investigadores contestam que os cristais magnéticos encontrados no interior do meteorito ALH84001 indiquem que alguma vez tenham existido bactérias no planeta vermelho.
Até hoje o mais importante possível indício de vida em Marte baseia-se em cristais de magnetite encontrados no interior de um meteorito marciano caído na Terra, que evidenciavam vestígios de bactérias fossilizadas. Mas, ao que parece, esses cristais não foram bem investigados, conclui uma equipa internacional de cientistas na última edição da revista "Proceedings of the National Academy of Sciences". É preciso fazer uma análise tridimensional com instrumentos capazes de observar bem esses minúsculos cristais, usando tecnologias muito recentes, defende a equipa.
Em 1996, o meteorito ALH84001, encontrado na Antárctida em 1984, tornou-se o foco das atenções da comunidade científica. O meteorito trazia, no seu interior, uma cadeia de grânulos cristalizados que pareciam ser, segundo afirmou uma equipa de cientistas da NASA na altura, vestígios fossilizados de vida microbiana. É que se pareciam muito com nanocristais magnéticos usados por algumas bactérias da Terra como bússolas para se orientarem. Os resultados dessa investigação, liderada por David McKay, tinham sido então publicados na mesma revista científica que, desde então, tem sido palco de vários artigos sobre o assunto - uns confirmando esse trabalho, outros desmentido-o.
De acordo com os investigadores norte-americanos, franceses e britânicos e húngaros que agora contestam as conclusões de 1996, liderados por Peter Busek, da Universidade do Arizona (EUA), o problema residiu no uso errado das tecnologias de análise dos cristais e à insuficiência da tecnologia existente há cinco anos.
Esta equipa, cujo trabalho também é financiado pela agência espacial norte-americana, afirma ser necessário efectuar análises tridimensionais mais desenvolvidas, por meio de tomografia, como se de uma TAC aos cristais se tratasse. É que estes grânulos são minúsculos demais, até mesmo para um microscópio electrónico normal: medem apenas entre 40 e 100 mil milionésimos de um metro. A tecnologia para analisar adequadamente algo destas dimensões só se tornou disponível nos últimos anos - e um dos poucos aparelhos para o fazer está no laboratório de Busek.
Só com uma análise tridimensional capaz de um pormenor tão incrível se poderá averiguar com certeza se os cristais do meteorito marciano têm origem biológica ou mineral. Mas, do que se sabe até agora, a equipa de Busek conclui que as frágeis cadeias de cristais de magnetite não têm origem biológica, isto é, não provam a existência de bacterias em Marte: "Apesar das semelhanças serem espantosas, elas não provam que se trata de cristais de fósseis de Marte", dizem.
O mineralogista Peter Busek, que agora coordena esta investigação, foi desde o primeiro momento um crítico da descoberta anunciada em 1996, numa conferência de imprensa pelo próprio administrador da NASA na altura, Daniel Goldin: "Não estou convencido de que estão errados - mas também não me convenceram do seu ponto de vista", disse na altura em declarações ao jornal norte-americano "Los Angeles Times". Essa opinião mantém-se.
Os cientistas adiantam que o facto das conclusões de 1996 se terem baseado em tecnologia inadequada pode ter ajudado a induzir em erro, uma vez que o alinhamento dos nanocristais, que se encadeiam como se de um pequeno colar se tratasse, aparecem como uma mancha clara, apesar de apresentarem regiões mais escuras. A equipa defende que o contorno destes cristais é muito importante, e só pode ser conhecido usado um microscópio de transmissão de electrões, que bombardeia uma amostra a analisar com um electrões em vez de luz e permite visualizar objectos com menos de mil milhões de um metro. Mas mesmo isto não chega: produz apenas uma imagem a duas dimensões, pelo que é necessário conjugar esta tecnologia com programas informáticos de visualização tridimensional.
"Não conhecemos ninguém que tenha estudado melhor estes cristais que David McKay", afirma a equipa de Peter Busek sobre o trabalho publicado em 1996. "Mas queremos mostrar que existem métodos mais precisos para estudar a morfologia destes cristais."
Fonte: In Publico, 27.11.01.