O calhau de Marte.

O calhau de Marte.

Por Nuno Crato.

Chegaram na semana passada mais notícias sobre o meteorito ALH84001, um calhau encontrado na Antárctica, em 1984, que tudo indica ter vindo de Marte. Esse meteorito terá uma idade de cristalização de 4500 milhões de anos, terá sido arrancado a esse planeta há 16 milhões de anos por algum impacto cósmico, possivelmente um choque de outro meteorito, e terá depois viajado pelo espaço interplanetário até que, há cerca de 13 mil anos, terá caído no nosso planeta. Tudo isto é hoje aceite pelos cientistas, depois de um pormenorizado estudo dos seus minerais, cristais e isótopos.

Poder identificar a origem deste meteorito e conhecer com tal rigor a sua origem é, por si só, um feito extraordinário. Mas em 1996, um cientista da NASA, D.S. McKay, e os seus colaboradores espantaram o mundo ao afirmar que este meteorito tem vestígios de compostos orgânicos e fósseis de formas de vida primitivas que terão existido em Marte.

Na semana passada, outros cientistas apresentaram novos dados que corroboram a hipótese defendida por McKay. Em estudos publicados na revista norte-americana «Proceedings of the National Academy of Sciences», foram reveladas, no meteorito, estruturas em cadeia de cristais magnéticos microscópicos utilizados por bactérias para orientação. Não existe nenhum processo químico inorgânico que possa ter criado tais estruturas, defendem os cientistas.

Ao contrário das conclusões dos geólogos sobre a origem e história deste meteorito, estes indícios sobre a possibilidade de vida em Marte não são unanimemente aceites pelos cientistas. Muitos dizem que os estudos não são convincentes. O britânico Collin Pillinger, por exemplo, afirma que «os dados apresentados não mostram satisfatoriamente que houve vida em Marte».

É verdade que as provas de McKay e das novas equipas de cientistas não são perfeitas. Alguns dizem mesmo que estas investigações apenas conseguiram ser publicadas em revistas científicas internacionais em virtude do sensacionalismo de que se revestem e que a NASA não deveria apoiar estudos tão especulativos. «Quanto mais fantástica é a afirmação, mais perfeitas têm de ser as provas», diz Pillinger, juntando-se a essas críticas.

Não é difícil dar exemplos de casos em que a comunidade científica aceitou conclusões que se vieram a verificar falsas. Mas há também casos em que a tentativa de supressão de teorias científicas com o pretexto de elas não estarem completamente fundamentadas trouxe prejuízos graves à ciência. O caso mais célebre é certamente o de Galileu. A sua defesa da teoria heliocêntrica estava baseada numa série de descobertas que destruíram o sistema geocêntrico, mas não se baseava em provas irrefutáveis a favor do sistema de Copérnico. Galileu tinha acumulado uma série de observações que sugeriam fortemente o movimento da Terra - nomeadamente as fases de Vénus, os satélites de Júpiter e o movimento das manchas solares. Mas Galileu não conseguiu apresentar provas decisivas. Essas provas apareceram em meados do século XIX, nomeadamente com o pêndulo de Foucault (1851), um instrumento que roda lentamente o seu plano de oscilação, de forma apenas explicável pelo movimento de rotação da Terra.

Mas a comunidade científica não teve de esperar por essa prova decisiva para aceitar a teoria de Copérnico. Newton, ao descobrir as leis da mecânica, explicou muitos fenómenos então obscuros, nomeadamente as marés, e mostrou que a teoria de Copérnico era consistente com as leis da física. Em fins do século XVII, muito antes de terem provas definitivas, os cientistas aceitavam unanimemente o movimento da Terra.

A evolução da ciência é um processo, feito de conjecturas e refutações. Muitas vezes, as teorias científicas aparecem com uma fundamentação que mais tarde se revela pouco rigorosa. Nem sempre é verdade que quanto mais surpreendentes são as afirmações mais convincentes têm de ser os estudos. Mesmo as especulações têm lugar na actividade científica. E as descobertas no calhau de Marte são muito mais do que simples especulação.

Pergunta:

No seu artigo «A Cratera do Meteoro» publicado no Expresso de 10 de Fevereiro fala indistintamente em meteoro e meteorito, mas eu pensava que meteoritos eram meteoros caídos do céu. Não haverá aqui alguma imprecisão?

Jorge Alberto Cruzeiro Dias, Viseu.

Resposta:

Meteoro é a luminosidade provocada pela entrada de meteoritos na atmosfera celeste. Habitualmente, esses objectos têm a dimensão de grãos de areia e desfazem-se na atmosfera, provocando as chamadas estrelas cadentes. Quando são maiores e caem sobre a Terra chama-se-lhes meteorólitos, aerólitos ou, simplesmente, meteoritos. A Cratera do Meteoro foi provocada pela queda de um meteorito, que terá certamente causado um espectacular meteoro.

E-mail:ncrato@mail.expresso.pt

Nota: Todas as questões que queira ver respondidas devem ser enviadas ao endereço electrónico acima ou ao jornal Expresso, A/c Nuno Crato.

Fonte: Expresso.pt, 10/03/2.001.


 

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