Uma prova de vida.

Uma prova de vida... na Terra?

Origem marciana dos "sinais" de actividade biológica no meteorito ALH84001 postos em causa

 Por: Ana Gerschenfeld

Novas análises do meteorito de origem marciana que se tornou célebre há cerca de um ano e meio vêm agora pôr seriamente em dúvida a prova da existência de formas de vida no planeta Marte. Afinal, os indícios encontrados neste bocado de rocha poderão não passar de contaminantes "apanhados" no nosso planeta.

Os componentes orgânicos contidos no meteorito ALH84001 são provavelmente de origem terrestre e não de origem marciana, afirmam hoje na revista norte-americana "Science" duas equipas de investigadores. Foi este meteorito que, em Agosto de 1996, levou a agência espacial norte-americana NASA a anunciar ao mundo que tinham finalmente sido encontrados sérios indícios da existência de vida - passada ou mesmo presente – em Marte.

O ALH84001 é uma rocha que pesa cerca de dois quilos e tem o tamanho de uma pequena batata. Foi descoberto em 1984 mas só recentemente é que se chegou à conclusão de que, tal como outros 11 meteoritos conhecidos, era muito provavelmente originário de Marte. Ao que tudo indica, esta rocha formou-se por cristalização de lava há uns 4,5 mil milhões de anos. E, há cerca de 15 milhões de anos, terá sido arrancada à superfície marciana pelo impacto de um asteróide, aterrando muito tempo depois na Antártida - há cerca de 13.000 anos.

O que é que este meteorito tinha de particular para motivar um anúncio tão bombástico? Acontece que é o único desse grupo de 12 a conter minúsculos aglomerados de minerais carbonados. Ou seja, de minerais que incluem o carbono, elemento essencial à formação da vida.

Mais importante ainda, na proximidade destes microscópicos aglomerados, que se terão formado há uns 3,5 mil milhões de anos ao longo de minúsculas fracturas internas da rocha que compõe o actual meteorito, os cientistas descobriram a presença de moléculas orgânicas chamadas PAH (hidrocarbonetos aromáticos policíclicos) - e ainda de estranhas estruturas alongadas que têm o aspecto de pequeníssimas bactérias fossilizadas. Este conjunto de características sugeria que tinha aí decorrido uma actividade biológica - actividade que teria tido lugar em Marte, milhares de milhões de anos antes de a rocha iniciar a sua longa viagem até ao nosso planeta.

Mas agora, as análises realizadas respectivamente pelas equipas de Timothy Jull, da Universidade do Arizona em Tucson, e de Jeffrey Bada, da Universidade da Califórnia em San Diego, vêm contrariar esta expectativa.

A equipa de Bada analisou três pedaços do meteorito ALH84001 à procura de aminoácidos. Estes componentes são os tijolos de construção das proteínas, que são por sua vez os ingredientes essenciais da química da vida, e por isso os cientistas consideraram que a procura de aminoácidos no meteorito e a determinação da sua origem era fundamental.

Os investigadores encontraram assim vestígios de três aminoácidos - glicina, serina e alanina. A seguir, analisaram a "quiralidade" destas moléculas - ou seja, a orientação, quer para esquerda, quer para a direita, da sua estrutura tridimensional. Sabe-se que, das duas "variantes" de cada aminoácido, que são a imagem especular uma da outra (como a mão direita e a mão esquerda), apenas uma existe sob forma natural na Terra - a forma "esquerda" ou L - ao passo que a outra forma (D), não existe na natureza mas pode ser sintetizada no laboratório. E considera-se geralmente que, embora nada impeça que uma forma de vida extraterrestre possa ser baseada na forma D - ao contrário do que acontece no nosso planeta - em princípio as duas formas dos aminoácidos não coexistem.

A análise revelou, para além da presença da forma L dos três aminoácidos, vestígios da forma D do aminoácido alanina. Conforme escrevem os cientistas na "Science", isto é "semelhante ao que foi detectado num outro meteorito de origem marciana descoberto na Antártida, o EETA79001, e é também semelhante à distribuição dos aminoácidos no gelo dos montes Allan", o local onde o ALH84001 foi encontrado. Um argumento de peso para os cientistas, que fazem notar que já foi sugerido que os aminoácidos presentes no segundo meteorito resultam provavelmente da sua contaminação, durante a sua estadia no gelo, devido à infiltração de água na rocha.

"Sim. Detectámos a presença de níveis muito baixos de aminoácidos no meteorito", diz Bada num comunicado emitido pela sua Universidade. "Mas estes aminoácidos são claramente de origem terrestre e são semelhantes aos aminoácidos presentes no gelo da Antártida". Quanto a saber como é que lá chegaram, a questão permanece em aberto.

A equipa de Jull, por seu lado, analisou o material orgânico contido no ALH84001 queimando amostras do meteorito a diferentes temperaturas, de forma a separar o carbono orgânico dos minerais carbonados. Os cientistas conseguiram assim medir a quantidade de duas formas - ou isótopos - diferentes do carbono : o carbono 13 e o carbono 14 (que é radioactivo é serve para datar materiais orgânicos).

Os cientistas puderam assim constatar que a concentração de carbono 13 na componente mineral do meteorito é diferente da sua concentração nos minerais carbonados terrestres - o que confirma a origem extraterrestre da rocha. O mesmo já não acontece porém com a abundância de carbono 13 na componente orgânica do meteorito, que desta vez é idêntica à abundância de carbono 13 no carbono orgânico terrestre.

Para mais, apesar de o meteorito ter caído na Terra há cerca de 13.000 anos, a idade do carbono orgânico do meteorito - calculada a partir do seu teor em carbono 14 - está compreendida, estimam os cientistas, entre 5.200 e 11.000 anos. O que implica que a sua formação foi posterior à chegada à Terra do ALH84001.

Nenhuma das duas equipas recusa totalmente a possível origem marciana de uma ínfima parte dos compostos orgânicos do meteorito. Em particular, os cientistas não analisaram directamente os PAH - que, como já foi referido, também são moléculas orgânicas. Mas, segundo Bada e os seus colegas, ao contrário dos aminoácidos, os PAH não desempenham um papel bioquímico essencial.

"O que nós e a equipa de Tim Jull mostrámos", diz Bada, "é que não temos dados que nos permitam dizer com certeza que o meteorito contém qualquer composto [orgânico] cuja origem possamos associar a Marte - com a excepção, talvez, de alguns diminutos componentes misteriosos cuja significação não percebemos por enquanto". Talvez haja ou tenha havido vida em Marte, conclui, mas não é o ALH84001 que permitirá resolver a questão.

Fonte: In "O PUBLICO" Edição de sexta-feira, 16 de Janeiro de 1.998.


 

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